16 de mai de 2017

60 Horas em uma penitenciária. Parte 5.

Senhores e Senhoras, dando prosseguimento a mais uma postagem, da série onde descrevo como foram minhas experiências e primeiras impressões sobre o ambiente carcerário em uma penitenciária do interior de Minas Gerais.

As outras postagens podem ser encontradas nos respectivos links: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4.

As Muralhas



Fonte:


Para começar, hoje vou falar de um dos setores mais entediantes e também um dos mais cobiçados pelos agentes que querem "morgar" o dia todo. Estou falando das "muralhas" e "guaritas". Existe em algumas penitenciárias, um grupo especial só para este posto.

"Curtindo a paisagem" Fonte aqui
Os muros que cercam as penitenciárias, são largos o bastante para que se caminhe sobre eles de forma cômoda e tranquila, com espaço o suficiente para atravessar mais de uma pessoa por vez nos corredores das muralhas. Além dos muros cercam as penitenciárias, é possível também andar sobre os muros que separam os pavilhões e celas, para que se possa ficar de olho nos presos, além de ser um suporte aéreo para as rotinas de abre e fecha cela que acontece o dia todo.

Os agentes que ficam neste posto, são uns dos poucos que possuem aval para usar arma longa no sistema carcerário.

O que posso dizer é que se trata de uma função, muito, mas muito entediante

Você fica o dia todo sentado em um banquinho velho, e de vez em quando sai para dar uma volta pelos muros, "apreciando a paisagem". Em cima dos muros, quando se passa pelas celas e pavilhões, você sente um cheiro forte, de suor, maconha, mijo e merda. Imagine todos esses odores misturados ao mesmo tempo!

É claro, há pavilhões mais limpos e outros não, como eu relatei nas postagens anteriores. Mais uma vez, o pavilhão dos presos sem condenação, é o pior para vigiar, pois o cheiro é forte e tem muito barulho. Em todos os pavilhões, basta você apontar o nariz em cima das muralhas que já se ouve logo os gritos

 - "Agente em cima da muralha... Caminhando para guarita 1 .... Agente olhando o pátio ... Agente caminhando pro fundo... Agente de olho... etc"

Os presos sempre gritam avisando os demais, sempre que um agente pisa o pés nas muralhas, gaiolas e corredores, avisando onde os ASPs estão, quantos são e o que carregam. Este é um hábito comum entre eles, que serve para evitar que sejam pegos em flagrante, usando celular, usando drogas, fazendo sexos, batendo em outros presos, cavando buracos, destruindo as paredes para pegar sua ferragem, negociando drogas e remédios, etc.  

Uma coisa que acontece sempre, é você ter de dar alarme sobre arremessos que acontecem da rua para dentro das penitenciárias, e acredite, acontecem o tempo todo. O pessoal passa de moto, de bicicleta, a pé, com pombos e até drones, arremessando celulares, drogas, armas e afins para dentro dos presídios.

Enfim, é um trabalho bem tranquilo e entediante, você fica o dia todo sozinho, sem cia de ninguém, sentado nas guaritas, andando, avisando pelo rádios sobre as chuvas (arremesso de objetos) que aconteceram no dia. O lado ruim além da solidão e do tédio, é que seu rosto é bem conhecido entre os bandidos, já que eles ficam lhe vendo, lhe encarando sempre que você passa pelos muros dos pavilhões. 

É claro, algumas vezes você tem de ter muita cabeça fria para evitar apertar o gatilho e fazer besteira com sua vida, pois ficar vendo meninos, meninas, mães, pais e bandidos ficarem arremessando porcarias por cima das muralhas, ficar ouvindo conversinha de preso, além do fato de uma eventual emergência, é você que tem a aram em mãos e os outros agentes estão de mãos limpas. Por isso, sempre deixar a arma travada, ou com as munições no bolso, para seu próprio bem.

 E aí, queria fazer parte deste esquadrão especial?

Logo, logo sai a parte 6. Vou escrever posts menores pois assim é mais fácil de escrever e postar no trabalho.

wwww.arquivos-virtuais.blogspot.com
 

5 comentários:

  1. Muito legal seu post! Tenho interesse em trabalhar na área de segurança pública. Por isso tenho curiosidade em saber sobre a investigação social do concurso para agente penitenciário. Trabalhei numa prefeitura e, por imbecialidade da chefia imediata, tomei uma suspensão de dois dias. Será que essa suspensão pode acarretar numa eliminação na investigação de conduta? Como foi a investigação social do agente penitenciário aí em Minas?

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  2. Oi Anônimo

    Em minha opinião, é uma ótima escolha. (Já relatei nas postagens anteriores que me arrependo muito de não ter entrando na área quando jovem)

    Cada concurso é um concurso, tem de ver o que estão avaliando no edital, qual área é (Quanto mais nobre a polícia, mais enjoados são quanto a essa fase).

    Já ouvi casos em que os candidatos foram reprovados na PM e PRF apenas por terem pegado multa de trânsito.

    A minha foi tranquila, (só não vá devendo pensão alimentícia, pois vc é preso na hora que adentra a delegacia, vi acontecer). Quem realizou foi a polícia civil, onde fui lá apenas para entregar os documentos pedidos nesta fase, apenas candidatos que tinham a ficha suja na polícia que tinham que preencher um formulário explicando o motivo.

    Acredito que essa suspensão sua não vá pesar, pois foi feita em uma esfera municipal e não estadual ou federal, talvez peçam para você explicar os motivos da suspensão em um formulário na frente do delegado, e claro, ele pode lhe fazer algumas perguntas e fazer sua avaliação.

    Como disse, depende do concurso e da polícia que almeja.

    abs

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  3. Obrigado Vidinho. Foi por ter chegado meia hora atrasado. Eu era filiado a um partido de oposição a administração do município na época. Suspensão de dois dias. Foi uma punição arbitrária mas que dificilmente conseguirua reverte-la na justiça, pois se trata do poder discricionário da administração pública em punir o servidor.

    Sobre multas reprovar o candidato. Sei de caso em que o cara foi reprovado porque ele foi pego dirigindo embriagado. Mas multa pequena, desde que não seja reincidente, acho que não reprova não. No mais, é passar num concurso e aguardar pra ver se eu passo na investigação ou se terei que entrar com mandado de segurança.

    Valeu pela atenção Vidinho. Boa sorte na sua caminhada rumo a independência financeira.

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  4. Imagino que deva haver um treinamento para o uso de arma letal, pareceu receoso de sua parte o uso de arma....pra quem está de fora, o armamento seria condição de maior segurança ao agente. Até que ponto o uso de arma pode intimidar ou provocar o preso? Isso é intimidador ao agente, visto que os detentos vêem seus rostos? (Pensei tb que os agentes assim usariam toucas p cobrirem seus rostos)

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    1. Oi Danielle

      Quanto ao treinamento com armas, na SUAPI (que cuida das penitenciárias e presídios).

      Entre 1 a 5 anos, depois do trabalho, você ganha o TCAF, que é o curso para uso de armas. Diferentemente da PM e PC, onde se faz o curso antes de pegar nas armas e trabalhar.

      Até hoje, segundo os agentes mais antigos, esse TCAF é curso para inglês ver... você dá apenas uns 150 a 200 tiros divididos entre pistolas, revolvers e armas longas. A PF está em cima deles, pois o mínimo de tiros para um TCAF segundo eles são 500 tiros.

      Ou seja, ou você tem uma experiência antes (Outra profissões da área, como exército, pm, vigilante, etc) ou corre atrás e faz cursos por conta própria ou não se importa com isso. Vai de cada um aqui.

      A arma de fogo, com certeza é condição de maior segurança para o Agente, desde que ele saiba utilizá-la. Arma de fogo não é só apontar e atirar, o psicológico aqui é o mais importante, apontar e atirar até uma criança de 5 anos o faz, e consegue facilmente acertar uma pessoa.

      Porém, o estatuado do desarmamento como leis de uso de armas de fogo restringe e pune severamente seu uso. Inclusive dentro das penitenciárias. Um agente que dá um tiro com bala não letal (IMPO) já tem muita, mas muita dor de cabeça para explicar para a justiça o motivo do uso de força de tal magnitude.

      Um tiro usando munição letal, com certeza o mínimo que irá acontecer é o agente ser afastado do cargo, até que se apure o motivo do uso da arma, se ficar provado que poderia se usar outros meios, o agente com certeza será preso.

      Ninguém quer ser preso ou perder o emprego por causa do uso da arma de fogo, com balas não letal e letais.

      O Agente Penitenciário, não tem poder de polícia, é apenas um civil comum que usa arma, por causa do local de trabalho. Tanto que nas reformas de previdência, o Agente Penitenciário está excluído da classe militar, que é uma classe que não irá sofrer mudanças nas regras de previdência, caso a reforma aconteça.

      Apenas o esquadrão de intervenção usa máscara para tampar seus rostos, todos os outros agentes trabalham de cara limpa.

      Quanto ao uso de armas intimidar os presos, intimida sim, mas o mais IMPORTANTE é QUEM está segurando (portando) a arma. Os presos são mestres em saber quem tem coragem de usar uma arma de fogo e quem não tem, sabem quando está com munição letal ou quando está com bala de borracha.

      Muitas vezes eles pegam um agente que já está com seu psicológico abalado, usam chantagens emocionais, atacam o agente mentalmente, causando medo, raiva e outras emoções negativa no mesmo, só para ver ele puxar o gatilho dar um tiro de borracha na parede ou em algum preso, para depois ver o mesmo perder seu emprego.

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