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20 de jun. de 2017

60 Horas em uma penitenciária. Parte 6.

Boas novas!

A vida corre mais rápida do que conseguimos acompanhar!  rsrsrsrs
Bom, dando continuidade a série de postagens 60 horas em uma penitenciária, onde relato as primeiras experiências de se colocar o pé nestes estabelecimentos, para trabalho. Já se foram cinco postagens e esta é a sexta. Será que é a última?

As outras postagens anteriores podem ser encontradas nos respectivos links: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4 e Parte 5.

Após comentar sobre o primeiro contato (Parte 1), onde descrevo a expectativa vs realidade ao adentrar em uma penitenciária. Depois "passar" por um motim e conhecer a escola (Parte 2), conhecer a enfermaria e um pouco do cartório que operam neste estabelecimento (Parte 3). Conhecer o pavilhão mais problemático da penitenciária, onde ficam os presos sem condenação (Parte 4). Ficar o dia todo "cangando" morcego, merecidamente, que fique claro isso, nas muralhas (Parte 5) é hora de passarmos por mais um setor na penitenciária.

Já estávamos chegando ao fim do curso de formação e havíamos passado por quase todos os setores desta casa de internação de malfeitores, entretanto, ainda restavam algumas áreas a serem desbravadas e uma delas, felizmente/infelizmente nos era proibida a entrada, com direito a severa repreensão caso essa ordem fosse descumprida. Estou falando dele, do:

Pavilhão Feminino


Fonte:
 
Eu não fazia a menor ideia de como era uma prisão, uma penitenciária e menos ainda de como era um pavilhão, imagina um pavilhão feminino. Mas, como relatei no início, não tive a oportunidade de conhecer o mesmo, é restrito a homens de baixo escalão, apenas agentes femininas e diretores da unidades têm permissão para entrar neste pavilhão.

Porém, na prática, existe uma hora que é "permitida" a entrada dos Agentes Masculinos no pavilhão feminino. Adivinhem só em qual situação isso é possível? .... .... Quando o pavilhão está quebrando e as presas estão enlouquecidas, as agentes femininas saem de cena (dão o fora literalmente) e sobra pros ASPs armados com seus cassetetes conterem os ânimos da mulherada. É claro, depois você tem de passar no cartório e responder o motivo do uso da força desmedida contra mulheres repreendidas e explicar como você, um homem, estava no pavilhão feminino.

Nem todas as penitenciárias são desorganizadas como a que eu estava, há sim tropas especiais de agentes femininas para contenção de motim nas unidades mais organizadas e maiores.

Meu primeiro contato com as presidiárias, foi já nos primeiros dias de curso, quando bem cedo, saia uma fila de mulheres maquiadas e de salto da penitenciária. Ser mulher já chama atenção, agora imagina ver uma mulher num local onde se tem uns 1500 presos mais uns 500 agentes, passando toda produzida pelos marmanjos.

Eu que tinha o folclore de como as mulheres dos presos são, ficava a imaginar o que essas meninas tinham na cabeça de ir passar a noite lá, de se envolver com esse tipo de gente. Mas então a ficha caiu, elas eram presidiárias em regime semi-aberto, que iam apenas dormir na penitenciária.

Alí naquela situação, elas chamavam muita atenção, mas se você as visse em outro ambiente, seria como cruzar com alguma mulher na rua. Algumas vocês achariam bonitas e teriam vontade de receber atenção dela, fantasiando parar a mesma e pegar seu telefone para ter um encontro romântico no outro dia. Outras passariam despercebidas por você e outras você desviaria para não passar muito perto delas.

Um outro momento que as vi também, foi quando elas estavam sendo encaminhadas para a oficina de costura que a unidade possui. Saiam em fila (6 a 8 garotas/mulheres) e subiam para o segundo andar do administrativo, onde fica a oficina. O que tenho de dizer de diferente aqui é que elas não usavam algemas e caminhavam "livremente" pela penitenciária, diferentemente de um preso masculino, que anda algemado para trás, tendo sempre um agente o acompanhando. E aí de algum agente masculino tentar espiar elas na oficina de costura, elas logo abrem queixa para as agentes femininas.

Um ponto que chama atenção também, é que a fila de mulheres não são compostas majoritariamente de mulheres feias e de idade avançada, e sim por mulheres mais novas (abaixo dos 30 anos). 

Se preparando para o dia de visitas. Fonte da imagem
Porém isso não significa nada, pois normalmente preso que trabalha e estuda nas penitenciárias não são presos de carreira, pelo menos tendem a não ser. Estão ali por terem cometidos aqueles cinco minutos de bobeira na vida. 

Outro ponto relevante é quanto a higiene do pavilhão, como eu havia dito nas postagens anteriores, os pavilhões que contém os bandidos mais perigosos são mais limpos, pois eles colocam os presos subalternos para fazer a limpeza das celas e corredores mas nem de longe é feita uma faxina como a que você ou sua mãe e esposa fazem em casa. Já no pavilhão feminino a higiene do recinto é bem melhor, as mulheres lavam tudo, desde paredes, corredores, portas e celas. Claro que não são todas dispostas a fazerem tal sacrifício, mas em comparação as celas masculinas a diferença é gritante.

Conversando com algumas agentes femininas, elas me informaram alguns hábitos das presas tais como: Andar nuas ou só de calcinhas pelos corredores e celas, muita, mas muita putaria entre as presas, acontecendo sexo quase 24 horas por dia e de maneira "consentida" diferente da ala masculina que na maioria das vezes não é consentida e não acontece em qualquer cela, só nas que são permitidas.

Há também um orelhão no pavilhão das presas, onde elas podem realizar e receber ligações! Sim isso mesmo que estão lendo. O orelhão não fica especificamente dentro do pavilhão, mas sim na porta e todas elas (que não estão de castigo) podem realizar e receber uma ligação por semana. 

Outro detalhe que me contaram também é que no pavilhão feminino não há superlotação pois a lei dos direitos humanos, de se ter uma pena digna, é mais forte a favor das mulheres. Se uma presa chega na penitenciária e não há mais vagas nas celas, em vez de jogar ela e amontoar um monte delas em uma cela, a penitenciária pede transferência dela ou de outra detenta, ou pede liberação dela ou doutra detenta para cumprir pena domiciliar, sem que ela precise procurar um advogado para lutar por esse direito.

Uma das regalias que me chamou muita atenção também, é que as detentas têm direto a um kit de maquiagem, pois elas não podem receber visitas de cara "limpa", isso denegriria a situação delas como mulher, perante a sociedade.

Concurso Miss Prisional Fonte aqui

Há também o concurso miss prisional, onde se elege a mulher mais bonita da prisão o concurso acontece em etapas sendo a final realizada em Belo Horizonte, não tenho muito a comentar sobre este evento pois não participei do mesmo, mas se procurarem na internete vão encontrar matéria sobre este evento, como nesta da uol: 

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/06/11/presidiarias-brilham-no-concurso-de-miss-prisional-em-belo-horizonte.htm

É tudo bancado por você, cidadão honesto e trabalhador que não pode sair a noite de casa. 

E adianto, não é barato, pois a festa os eventos são grandes, duram dias, roupas, maquiagens, maquiadores, cabeleireiros, som, luzes, juízes, transporte, segurança, estadias, etc. Tudo bancado pela sistema penitenciário
 
Apresentação musical. Fonte da imagem
O pavilhão Feminino, possui mais dinâmica e atividades sociais, como teatros, palestras, apresentações artísticas de alunos universitários, visitas de ONGs e instituições religiosas, grupos sociais, cursos profissionalizantes, essas coisas.

Enfim, não tenho muito a acrescentar sobre a população carcerária feminina, uma porque não tive contato com elas, outra porque na unidade em que estava não é uma penitenciária feminina e tem apenas um pavilhão improvisado para guardar as infratoras maiores de idade. 

Ah sim, outra coisa. As presas grávidas ou que amamentam, são transferidas para o regime domiciliar ou são transferidas para uma penitenciária feminina que possui médicos especializados para acompanhá-las, como médico Obstetra, Pediatra, Ginecologista, e outros profissionais da saúde da mulher. Possuem fraldários e infraestrutura específica para abrigar crianças que ainda dependem da mãe para sobreviver.

Já ia me esquecendo de outro detalhe também, que estava revoltando muita gente nesta penitenciária. É que as presas têm permissão de trabalhar e fazer o serviço administrativo da cadeia. Isso estava gerando muita, como vou descrever, revolta nos agentes. Pois assim, as detentas estavam coletando informações pessoais dos agentes penitenciários e repassando informações a seus maridos e homens do tráfico a qual elas tinham contato. 

Espero ter contribuído de alguma forma para matar um pouco a curiosidade sobre as presidiárias, mas sinto que ficou faltando muita coisa. Se tiverem alguma curiosidade mais, me perguntem que vejo se consigo responder.



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16 de mai. de 2017

60 Horas em uma penitenciária. Parte 5.

Senhores e Senhoras, dando prosseguimento a mais uma postagem, da série onde descrevo como foram minhas experiências e primeiras impressões sobre o ambiente carcerário em uma penitenciária do interior de Minas Gerais.

As outras postagens podem ser encontradas nos respectivos links: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4.

As Muralhas



Fonte:


Para começar, hoje vou falar de um dos setores mais entediantes e também um dos mais cobiçados pelos agentes que querem "morgar" o dia todo. Estou falando das "muralhas" e "guaritas". Existe em algumas penitenciárias, um grupo especial só para este posto.

"Curtindo a paisagem" Fonte aqui
Os muros que cercam as penitenciárias, são largos o bastante para que se caminhe sobre eles de forma cômoda e tranquila, com espaço o suficiente para atravessar mais de uma pessoa por vez nos corredores das muralhas. Além dos muros cercam as penitenciárias, é possível também andar sobre os muros que separam os pavilhões e celas, para que se possa ficar de olho nos presos, além de ser um suporte aéreo para as rotinas de abre e fecha cela que acontece o dia todo.

Os agentes que ficam neste posto, são uns dos poucos que possuem aval para usar arma longa no sistema carcerário.

O que posso dizer é que se trata de uma função, muito, mas muito entediante

Você fica o dia todo sentado em um banquinho velho, e de vez em quando sai para dar uma volta pelos muros, "apreciando a paisagem". Em cima dos muros, quando se passa pelas celas e pavilhões, você sente um cheiro forte, de suor, maconha, mijo e merda. Imagine todos esses odores misturados ao mesmo tempo!

É claro, há pavilhões mais limpos e outros não, como eu relatei nas postagens anteriores. Mais uma vez, o pavilhão dos presos sem condenação, é o pior para vigiar, pois o cheiro é forte e tem muito barulho. Em todos os pavilhões, basta você apontar o nariz em cima das muralhas que já se ouve logo os gritos

 - "Agente em cima da muralha... Caminhando para guarita 1 .... Agente olhando o pátio ... Agente caminhando pro fundo... Agente de olho... etc"

Os presos sempre gritam avisando os demais, sempre que um agente pisa o pés nas muralhas, gaiolas e corredores, avisando onde os ASPs estão, quantos são e o que carregam. Este é um hábito comum entre eles, que serve para evitar que sejam pegos em flagrante, usando celular, usando drogas, fazendo sexos, batendo em outros presos, cavando buracos, destruindo as paredes para pegar sua ferragem, negociando drogas e remédios, etc.  

Uma coisa que acontece sempre, é você ter de dar alarme sobre arremessos que acontecem da rua para dentro das penitenciárias, e acredite, acontecem o tempo todo. O pessoal passa de moto, de bicicleta, a pé, com pombos e até drones, arremessando celulares, drogas, armas e afins para dentro dos presídios.

Enfim, é um trabalho bem tranquilo e entediante, você fica o dia todo sozinho, sem cia de ninguém, sentado nas guaritas, andando, avisando pelo rádios sobre as chuvas (arremesso de objetos) que aconteceram no dia. O lado ruim além da solidão e do tédio, é que seu rosto é bem conhecido entre os bandidos, já que eles ficam lhe vendo, lhe encarando sempre que você passa pelos muros dos pavilhões. 

É claro, algumas vezes você tem de ter muita cabeça fria para evitar apertar o gatilho e fazer besteira com sua vida, pois ficar vendo meninos, meninas, mães, pais e bandidos ficarem arremessando porcarias por cima das muralhas, ficar ouvindo conversinha de preso, além do fato de uma eventual emergência, é você que tem a aram em mãos e os outros agentes estão de mãos limpas. Por isso, sempre deixar a arma travada, ou com as munições no bolso, para seu próprio bem.

 E aí, queria fazer parte deste esquadrão especial?

Logo, logo sai a parte 6. Vou escrever posts menores pois assim é mais fácil de escrever e postar no trabalho.

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20 de mar. de 2017

60 em uma peniteciária - Parte 4

Bom pessoal.

Dando continuidade a série, onde conto minha experiência sobre o curso de formação técnico-profissional de agente de segurança penitenciário (ASP), onde tive de frequentar uma penitenciária por 60 horas.

A parte 1, 2 e 3 podem ser encontradas respectivamente: Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

O pavilhão dos presos sem condenação


- Bem vindo ao inferno!! Eram os gritos de boas vindas. Link da Fonte da imagem aqui.


Depois de passar pela estadia na enfermaria, jurídico e cartório, nos pavilhões mais novos, com presos condenados, no pavilhão da escola onde habita os presos mais antigos e os chefes das organizações criminosas, é hora de adentrar os corredores do pavilhão dos presos recém chegados, ou que aguardam sua condenação.

Este era o pavilhão onde tinha acontecido o motim logo no primeiro dia que chegamos, é o pavilhão onde se houve gritos e barulhos o dia todo, muito diferente do silêncio dos outros pavilhões ainda mais para mim que estava há dois dias preso na atmosfera silenciosa e tenebrosa do pavilhão escolar.

Já logo na entrada deste pavilhão, o choque das realidades pode ser percebido. O cheiro de suor e merda humana já adentrava as narinas, o chão era sujo, emporcalhado com poças de água parada e suja que estavam alí há dias. Eu fiquei com medo de passar por cima dessa água suja e parada, com meu tênis, com medo de molhar meus pés e pegar uma doença, talvez até incurável. Mas era o única caminho a ser seguido.

Era o pavilhão mais antigo da penitenciária, nele não há aquele corredor longo cheio de grades que antecede a gaiola e os corredores das cela, ao atravessar a primeira porta de grade do pavilhão, você já dá de cara com o corredor cheio de celas, são dois andares cheios de celas. O prédio tem forma retangular, com o pátio de banho de sol separando as celas do lado direto, das que estão no corredor do lado esquerdo.

Os presos ao verem os novatos, com suas camisetinhas brancas chegarem, começam sua recepção de boas vindas aos novatos!!

Eram centenas de presos gritando, cuspindo, xingando, batendo nas grades e os pés no chão com força. Pude sentir o chão sobre os meus pés tremerem, não ouvia uma voz sequer dos meus colegas de equipe, estavam todos mudos, enrijecidos, apenas caminhavam para frente seguindo o falcão.

Se não tivesse a presença dos novos recrutas alí comigo, mais 34 aspirantes e três APS eu não teria conseguido atravessar aquele corredor como o fiz. 

Quanto mais adentrávamos o corredor, pior era a sensação. O barulho era ensurdecedor, o piso do corredor tremia, eram dezenas de presos dentro de cada cela. Eles chutavam as grades e as paredes das celas, eu torcia e rezava para que elas aguentassem e não quebrassem. 

O fim do corredor foi a parte mais tensa, a única saída estava a centenas de metros de distância, eu olhava para trás e via todas aquelas grades batendo, as paredes e grades tremiam com os golpes que recebiam. Dava para ver com exatidão as paredes e grades em vergalhando um pouco, eram dezenas que pareciam centenas nessa situação. 

O cheiro de maconha e suor irritava as narinas, o cheiro da erva queimando estava em todas as celas e estas exalavam esse bafo de maconha, suor e calor.

Na hora não sabia como, mas grades seguraram a fúria dos presos, e chegamos ilesos a gaiola de entrada do corredor, muitos recrutas tinham marcas de cusparadas em suas roupas e braços, eu tive a sorte de não ter nenhuma.

https://aldoadv.files.wordpress.com/2009/12/penitenciaria.jpg
Eu saí da gaiola para respirar, tomar um ar, passar uma água no rosto e tomar um pouco de água. Muitos, senão todos os recrutas da equipe fizeram o mesmo.

Passado esse momento de apresentação aos presos, o barulho foi abaixando, e os pontapés nas celas foram cessando. O presos riam e faziam comentários altos quase gritando sobre nós, eles se divertiram passando medo em mim, em nós todos da equipe.   

De certa forma, os presos sabem que os novatos têm medo deles, de andar pelos os corredores, eles se aproveitam e se divertem com isso, com o passar do tempo isso ficou bem visível para mim, para nós todos. Essa desgraça de gente, usa toda sua inteligência e artifícios para a maldade.

Nas outras vezes em que entrava no corredor para tirar algum preso, ou ouvir reclamação da alguns, era comum ouvir comentários do tipo: " - E aí verdinho, soltou barro a primeira vez que me viu?; - De vagar aí, senão a cela vai quebrar". Os comentários viam cheios de gargalhadas e risos da cela toda.

Com passar do tempo você vai ficando mais tranquilo e os presos quando notam que eles intimidam menos, acabam diminuindo as agressões físicas, verbais e mentais. Mas confesso que durante os dia em que estive neste pavilhão, sempre tive medo de entrar em seus corredores, celas superlotadas (igual da foto), preso xingando e batendo na grade sempre que você passa, corredor exalando maconha. Eu e dois companheiros conseguimos permissão para adentrar só nós três no corredor, queríamos ver como é a sensação, já que no dia a dia é este o número de agentes que entram nesses corredores. Não é uma boa sensação, não mesmo, pode se acostumar com isso sem problemas, mas de fato, te afeta muito de maneira inicial. Passar por centenas de presos que ficam te encarando, mostrando as tatuagens de palhaço que carregam com orgulho pelo corpo, estufando o peito e lhe ameaçando com o olhar. Demora-se a acostumar com este ambiente.

O pátio deste pavilhão era totalmente destruído, marcas nos muros de vandalismo, marcas de roubo dos vergalhões de aço que fixam as muralhas expostas, mas já sem os vergalhões pois os presos usam esses materiais para fazerem armas artesanais. Pichação do PCC no chão, e nas paredes, desenhos de curingas por todos os lados. Havia um muro que separava o pátio em dois, para separar os presos durante o banho de sol, mas só restava a base e alguns tijolos deste, que fora destruído a pontapés e teve sua ferragem arrancada para produção de armas. 

Durante uma de minhas conversas com os agentes que trabalhavam neste pavilhão, perguntei se eles não tinham medo dos presos quebrarem as grades, já que quase quebraram elas quando nós chegamos, a resposta dele foi a seguinte: " - Cara, na verdade elas já estão quebradas, durante aquele motim que teve na segunda, quando eu subi no segundo andar para trancar a gaiola, os presos estavam todos nos corredores, com as blusas tampando seus rostos e com suas facas e ferros em mãos, essas celas estão quebradas há tempos, eles abrem e fecham isso a hora que querem"

Já podem imaginar como eu me senti, após saber deste fato!

Neste setor há também o setor de triagem, quando a unidade recebe um novo preso, ele é levado a este setor, onde guardam os pertences do preso, e lhe dá sua nova roupa e o encaminha para alguma dessas celas, onde ele irá aguardar seu julgamento ou seu advogado. Há poucos meses atrás, todos os presos tinham a cabeça raspada e tomavam um esguicho de água fria, mas hoje em dia só pode ter o cabelo raspado o preso que pedir ou concordar com isso, o esguicho ninguém quer mais tomar.

Este setor tem muitos problemas, pois há muitos viciados que chegam da rua e ficam nessas celas, pelo cheiro, acredito que maconha não deva faltar para eles, mas as outras drogas são mais difíceis para se conseguir. As organizações do crime, proíbem a venda de crack na cadeia, só alguns presos tem permissão para vender crack e cocaína nas penitenciárias, assim fica mais fácil de controlar o rebanho deles nestes estabelecimentos. 90% dos viciados fazem qualquer coisa por uma pedra de crack.

E quando a síndrome de abstinência atacam esses indivíduos, o que acontece frequentemente, acontece muita bagunça nas celas, brigas, presos que passam mal, que gritam e berram a dia todo. É sem dúvida alguma, o pior local para se trabalhar na penitenciária em que eu estava.


É muita, muita coisa para contar e sinto que não consigo expressar bem como realmente foi a experiência, mas estou tentando. É muito detalhe, muita coisa, uma estrutura complexa para se contar, sinto que vou chegar até a parte 10. Tem muita coisa que ainda quero descrever como foi, e a minha percepção sobre a rotina e vida dos presos.

Em breve, sai a parte 5. Aqui foi a realidade foi mais próxima do que vemos aí nos sensacionalismo da mídia.    

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21 de fev. de 2017

60 Horas em uma penitenciária. Parte 3.

Dando continuidade a série, sobre meu estágio em uma penitenciária de Minas Gerais, onde a primeira postagem e a segunda podem ser conferidas, aqui e aqui.

A enfermaria


Típica rotina de trabalho do local. Fonte aqui.
Como já é sabido por todos, preso tem direito a saúde, dentista e acompanhamento médico. Como eles não podem ir até os postos de atendimento, os postos de atendimentos vêm a eles. Dentro das unidades, há sempre (quase sempre) uma enfermaria, equipada com aparelhos e profissionais da saúde: médicos, enfermeiras, farmacêutico, dentistas, profissionais da saúde em geral. 

Algumas unidades são melhores equipadas, outras não. A que eu estava possuía todos os profissionais que listei acima, quase todo o corpo de profissionais deste local era composto por mulheres, tendo apenas um ou dois ASPs realizando a segurança do local.

Uma das grandes dores de cabeça dos gaiolas (ASPs que tomam conta da gaiola: área limite do ponto crítico (celas) com a área de segurança) são as dezenas de "caô" que os presos ficam enviando para eles. Caô são bilhetinhos que os presos deixam com os gaiolas, solicitando atendimento (médico, jurídico, educacional, visitas íntimas, etc) muitos contendo uma boa dose de mentira e enrolação, outros não.

As enfermarias, são minas de ouro para os presos e para o comércio entre eles. Como os presidiários possuem direito a remédios e as unidades de tratamento possuem remédios importantes para o "convívio social deles" não era de se esperar outra coisa. Estou falando dos remédios taxa preta, controlados e outros de mesma natureza. Remédios que são usados como drogas, para provocar as "viagens", para potencializar os efeitos das drogas, os que misturados com outros, ou tomados em grandes doses provocam efeitos psicodélicos ou psicotrópicos.

Os presos gostam tanto de remédios que há até uma expressão dos agentes penitenciários: "Com um vidro de Tylenol, você segura uma rebelião". 

Os diretores até que tentam realizar um controle destas substâncias e remédios, mas por lei não podem negar remédios aos presos, sem contar que alguns presos conseguem via jurídica para receberem tantas doses de determinado remédio. Ainda mais pela condição carcerária deles, é relativamente fácil para um preso conseguir pela justiça o direito de fazer usos desses medicamentos, para aliviar seu traumas e stress. 

Há sim o atendimento a presos que estão realmente doentes, com doenças graves ou menos grave, mas o comércio de remédios existe e é bem rentável na cadeia, tanto para os presos tanto para os funcionários.  Vocês conseguem ler nessas entrelinhas o que quero dizer, não que eu tenha visto, apenas escutado histórias.

Uma das coisas que os presos gostam de fazer também, é mostrar o pênis para as enfermeiras. Eu devo ter levado uns 10 presos para atendimento médico nas partes íntimas. Alguns (quase todos) presos ficavam algemados para a frente, e as próprias enfermeiras tinham que tirar a calça e cueca do indivíduo, para pegar na rola do preso. Eu tinha que ficar no consultório, protegendo a integridade física da enfermeira, acabava vendo essas cenas (homem pelado é que mais se vê nas cadeias). Algumas vezes elas faziam com gosto, outras vezes com nojo. Alí pude notar como mulheres agem em relação ao tamanho do órgão masculino, experiência ao vivo e em loco. 

Normalmente a cara, o sorriso, higiene e a conversa do preso faziam com que elas fossem mais receptivas a consulta, o cheiro incomodava muito elas, a aparência e tamanho também. Ou talvez foi apenas viagem e minha imaginação tendenciosa. O fato é que havia sim diferença no tratamento dos presos, diante deste tipo de consulta, os motivos não posso afirmar quais eram, apenas suspeitas tendenciosas ao folclore urbano.  

Fonte: aqui
Não quero dizer que presenciei mamadas e relações sexuais, apenas que algumas vezes elas faziam uma vistoria mais detalhada, ficavam mais tempo segurando o órgão, algumas vezes faziam perguntas clínicas segurando o phalus, esboçavam sorrisos, na maioria das vezes nem olhavam direito. Uma grande parte do público de presos são compostas por moradores de ruas, viciados que nem banho tomavam, doentes aidéticos, mendigos, aleijados. Há também a outra parte, presos fortes, musculosos, jiu jiteiros,  chefes de tráficos, brigões de bar, ratos de academia, lutadores de muay thai, etc. Até um ex vereador da cidade eu encontrei lá dentro. Sem contar que tem muita rotação de preso, é gente entrando e saindo presa o tempo todo, e na penitenciária havia mais de 1000 presos, onde uns 300 rotacionavam por mês. Tenho uma leve suspeita que essas meninas e mulheres viam e seguravam mais pênis que muita garota de programa por aí.

Na enfermaria também há celas, normalmente presos que precisam de tratamento médico especial, X9, presos marcados para morrer, estupradores de menor, ou então estão se recuperando de uma bela surra que tomaram de outros presos, ficam acautelados na enfermaria. Em geral, presos que precisam de seguro e não tem onde colocá-los.

Na semana em que estive lá, notei que a rotina é bem, mas bem mais leve do que as dos postinhos de saúde públicos. Não há filas, pessoas doentes caídas pela chão, cadeiras ou macas nos corredores. Ficam no máximo um ou dois presos recebendo atendimento na enfermaria, após o atendimento terminar é que elas (enfermeiras) dão autorização para buscar outro preso para o atendimento. Há também um limite máximo de presos que elas atendem por dia, acredito que cada uma deve atender no máximo uns 5-7 presos por dia, não posso afirmar com precisão os números, mas sei que não é muito, sempre que chegava lá havia uma roda de conversa, claro, casos graves se abre exceção. Os agentes penitenciários, não gostam também de ficar entrando em corredores e celas lotadas, para tirar preso para o atendimento, então nem eles nem elas reclamam da falta de atendimento clínico.  Acredito que durante as campanhas de vacinações, o trabalho é um pouco mais puxado, eles possuem direto prioritário de receber vacinas, por estarem em ambiente confinado.

Quando há casos mais graves, ou quando não há especialistas no unidade, os presos são escoltados até os hospitais públicos. Eles, os presos, possuem atendimento prioritário e passam na frente de todo mundo, não importa o tamanho da fila que a unidade de saúde pública possuí, eles sempre são atendidos rapidamente. 

Jurídico e cartório


Essa parte, infelizmente eu não tenho muito o que falar. Só fui duas vezes a estes locais, não tive muito acesso a este departamento penitenciário. Nem fotos eu encontrei na net, então vamos ter de exercitar a imaginação.

Uma coisa que vamos ter em mente é que advogados são semi-deuses para os presos, eles são quem ajeitam suas vidas dali para frente. O atendimento ao jurídico e ao cartório, são também fontes de muito caô, os bilhetinhos dos presos para os agentes de segurança penitenciários. Jurídico e cartório são departamentos diferentes também.

O Jurídico é onde os advogados contratados pelos presos atendem e são muitos. Eles, os advogados, são imunes as leis penitenciárias. Podem entrar e estacionar seus carros dentro das penitenciárias, podem andar sem escolta (ASPs) pela penitenciária, não podem sofrer revistas, não podem ter seus pertences revistados, possuem salas com acesso a internete, podem usar celular dentro da penitenciária, possuem café e lanche da tarde bancado pela unidade penitenciária. 

Vou tentar descrever um pouco o prédio e ala jurídica. Eles possuem um prédio, afastado dos demais pavilhões dos presos, não muito. O prédio tem a sala de espera, onde os advogados ficam aguardando os agentes trazerem os presos para o atendimento. 

A sala está equipada com mobiliários, como sofá, filtro, garrafa de café, mesas, copos descartáveis, uma televisão lcd, duas baias com computadores conectados a net. Normalmente, eles ficam conversando fiado, no telefone ou navegando na internete enquanto aguardam seus clientes. Não são mobiliários novos, e nem os pcs são de última geração. 

Já logo quando entrei no local, fui estranhamento abordado por três advogados com seus ternos, gravatas e pastas. Eles vinham com jogos de perguntas sobre como os agentes estavam no dia, de como ouviam barulhos estranhos vindo dos pavilhões, que tinham visto presos mancando, o que eu achava das leis carcerárias e de como os presos são tratados. Se eu achava certo punir quem já estava sendo punido pela sociedade, tentei ficar calado, não por ser velhaco com as artimanhas deles, apenas por que estava me sentindo oprimido. Sentia que eles estavam procurando algo para usarem a favor de seus clientes, ou para ferrar alguém alí. Eles eram eloquentes, bem articulados  e eu, um sujeito do interior sempre fico acanhado e sem jeito diante de pessoas assim, normalmente acabo ficando mudo diante dessas pessoas. Como mecanismo de defesa social, para não dar muita bobeira, gafes, ou medo de me passar como idiota.

O agente que estava me instruindo, logo me tirou para longe dos advogados e me recomendou ficar bem longe deles, alertando que é bem comum eles abrirem processos contra os ASPs. 

Quando o Agente chega com o cliente (preso), o advogado se levanta e o conduz para uma corredor, cheios de salas, as quais possuem um vidro (janela que não abre) que dá para este corredor, sua medida deve ser de 25 cm x 25 cm. Nesta sala, só é permitida a entrada do advogado e do preso, o agente penitenciário deve ficar do lado de fora, para não ouvir a conversa e nem ver os detalhes do que se passa no atendimento, apenas observando pela vidraça do lado de fora. Se o advogado passa algum celular para o preso, ou outro material proibido no estabelecimento, o agente tem de responder no cartório, sobre sua postura e falta de atenção na hora de conduzir um preso para o atendimento.

Já o departamento que eles chamam de cartório, é onde os presos fazem as denúncias de maus tratos, agressões verbais e físicas que sofrem dos agentes penitenciários. Se o agente não fez seu trabalho de ouvir e atender os pedidos dos presos, se eles lhe faltaram com respeito, se agrediram, ou tiveram atitudes agressivas com as visitas, etc. É uma sala que possui um movimento considerável, tanto de presos fazendo as denúncias, como de agentes que têm de darem as devidas explicações para seu desvio de conduta. 

Os agentes não têm acesso aos advogados e analistas jurídicos que a penitenciária possui, eles só atendem as solicitações dos presos e abrem processos contra os agentes, ou fazem trâmite jurídico de redução de pena para os presos.

Está ficando mais extenso do que eu imaginava, ainda vou ter de fazer a parte 4 e quem sabe a 5, para terminar minha experiência. Se quiserem que eu pare, para não ficarem enchendo o blog roll de vocês com assuntos que não é pertinente a blogosfera, é só dizerem. Ou então, se possuem alguma curiosidade sobre estes estabelecimentos que não estão sendo contempladas neste humilde relato.

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10 de fev. de 2017

60 horas em uma penitenciária! Parte 2

Dando continuidade a série onde relato minha experiência de trabalhar, na verdade frequentar, uma penitenciária por 60 horas.

A primeira parte pode ser conferida nesta postagem!  

O Motim!

Fonte: http://s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2013/02/22/dsc05567_pedrotriginelli.jpg
Após eu adentrar os portões desta masmorra, digo penitenciária, e me tranquilizar mais, devido a contingência de recrutas e pela melhor aparência do local, fomos divididos em equipes, onde tivemos nosso cronograma de visita e designado um falcão (líder) que ficaria de olho e cuidaria de nossa equipe de novatos. 

Ao todo, acredito que a penitenciária estava recebendo 160-180 estagiários, minha equipe era composta por cerca de 35 homens.

No primeiro dia fomos levados ao pavilhão onde ficam os detentos já com condenação. Uma coisa que descobri é que preso condenado dá menos trabalho dentro das penitenciárias, tanto que presídios onde teoricamente só há presos condenados, o trabalho é mais tranquilo. 

Era o pavilhão mais novo, com muito espaço e cheio de grades e gaiolas de proteção, os banheiros estavam todos destruídos e sujos, impossíveis de serem usados com tranquilidade.  

Corredores que levam as alas das celas. Porém este é de uma cadeia privada, a "nossa" tem o chão de cimento já deteriorada, paredes sujas e encardidas, grades enferrujadas. Fonte neste link

O falcão, diante da última gaiola de cada bloco antes de entrarmos nos corredores das celas, nos instruía e orientava a respeito dos presos e do local. Essa gaiola, é uma gaiola mesmo, quadrada, composta de grades e telas até no teto, com duas portas. E esta, a gaiola, é cercada ainda por dois conjuntos de grades, é o limite de área de segurança e da área crítica, os corredores onde ficam as celas e os presos. Não importa o que aconteça dali em diante, as grades e portões que trancam a gaiola e os corredores das celas devem ficar sempre fechados, mesmo que os agentes ali dentro estejam sendo atacados, violentados e outras coisas mais. 

O falcão apontava sobre os detalhes da celas e corredores, mas eu só conseguia ver as telas e as grades. As telas são muito finas e justas, quase não havia espaço para passar a luz, e me perguntava como ele conseguia ver através dessa cortina de grade e tela.

Foi quando ouvimos os primeiros estrondos, barulhos de tiros e granadas, distantes. Por segurança fomos retiradas para fora do presídios e tivemos de aguardar 4 horas lá fora, no pátio que do estacionamento. O motim aconteceu em outro pavilhão distante (há penitenciária é bem grande), lá fora eu só ouvia os barulhos das granadas e tiros de borracha. Conversando com os colegas que estavam no pavilhão do presos provisórios, onde aconteceu o motim, eles descreveram que os presos que estavam no pátio, tomando o banho de Sol, começaram a gritar o hino do PCC e a jogar pedras na gaiola onde eles estavam, então o esquadrão especial interveio, para acalmar os ânimos do presos que queriam fazer uma bela recepção para os verdinhos(novatos).

Apesar de eu não ter presenciado a cena de camarote, foi a primeira vez que ouvi barulhos de granadas de IMPO (Instrumento de Menor Potencial Ofensivo) sendo explodida e de 12 cuspindo balas de borrachas.  

A Escola


Dentro desta unidade, há uma escola em funcionamento, "educando e ressocializando os presos". Ela está inserida no melhor pavilhão da penitenciária, onde não há superlotação das celas, apenas lotação (Se a cela tem 4 beliches, tem 4 presos), onde os corredores são mais limpos que dos outros pavilhões (Presos selecionados têm de fazer uma boa faxina no local), não há gritarias e bateção de cela o dia todo. Na verdade há um silêncio constrangedor durante a maior parte do tempo, ouvindo ás vezes o cochichar de vozes. Até as TVs são ligadas quase que no volume mínimo, dentro das celas, e todas elas, possuíam de uma a três TVs e outros utensílios, como rádios, livros. Como fiquei apenas um dia lá, e o acesso e horário aos corredores são restritos, acredito que seja um acordo mútuo de boa vivência entre os presos e os ASPs (Agentes de Seguranças Penitenciários), e pela falta de luminosidade das celas, ainda vou falar sobre elas, não se dá para ver tudo que há dentro de uma cela, por mais minúsculas que elas sejam.

É onde a maior parte dos grandes criminosos, chefes de facções e tráficos estão! Ou então, os presos mais velhos de casa, que pagam cadeia há uns 10 anos.

Os agentes alí não andam batendo botas nos corredores, não falam alto e em tom imperativo, devo dizer que algumas vezes eu mal conseguia escutar e entender o que os agente penitenciários falavam com os presos nas portas das celas, é como se nenhum dos presos quisessem que a conversa ou o pedido de atendimento fosse ouvido por outro ou pela cela vizinha.

Nesse pavilhão, muitos presos tem acesso a educação, salas de aulas e professores. E com isso ganham progressão de pena, além de outros pequenos benefícios que a escola pode proporcionar a eles. Como o fato de estarem em contato com professoras (mulheres) acho que eram cinco professoras e quatro delas namoravam algum preso ali. O fato de como as mulheres são atraídas por esses indivíduos não será discutido nesse momento.

Mas a escola sim, devo dizer que eu como analista educacional, com mais de 50 escolas para olhar, não tinha visto uma escola tão bem arrumada e com mesas e carteiras tão novas. Todo o imobiliário da escola é novo, sem sujeira e em perfeito estado, prateleiras e armários dentro das salas para guardarem seus pertences escolares, quadros e lousas brilhantes e novas. Sala de informática com um computador para cada aluno, porém a direção da penitenciária havia proibido a utilização dos computadores, mas eles estavam lá. A escola não possuía projetos pedagógicos sofisticados, como a rádio estudantil (um rádio que funciona dentro do colégio que é administradas por estudantes), que serve apenas pros alunos enviarem cantadas uns para os outros, ou para estourarem as caixas de sons com seus funks e proibidões, nem tele salas (aulas on-line via telão) ou educação integral. Mas era uma boa escola, com bons livros, poucos alunos por sala, contingente de professores adequado e mobiliário novo.

Se parecia um pouco com essa! Fonte: http://www.piaui.pi.gov.br/images/albuns/album_1961/50461b5227_media.jpg


       
fonte: http://www.visitanteseap.rj.gov.br/VisitanteSeap/images/projetos/gabrielferreiracastilho.jpg

Acredito que o orçamento para essas unidades escolares seja separado do orçamento das outras escolas, porém não consigo afirmar isso aqui. Sei que alguns projetos realizadas nas penitenciárias possuem verbas desvinculadas (quando são separadas de um bolo maior para atender um bolo menor) do orçamento educacional.

Em termos de segurança, a escola é ponto mais vulnerável de toda penitenciária. Nas salas de aulas não há agentes, apenas professores e eles e elas ficam sozinhos com esse tipo de pessoa, tendo apenas sua boa educação como arma para se defender de qualquer coisa que possa acontecer ali. Há também uma certa rixa entre ASPs e Professores, coisa de ideologia.

Há também presos que estudam fora, fora dos muros das penitenciárias. Eles possuem viaturas e motoristas (ASPs) para levar e buscar os mesmos nas escolas e faculdades que frequentam, este é um direito que eles conseguem via justiça e influência.

Se os presos são ou não ressocializados através destas unidades educacionais, não há como dizer! Já me falaram que não há nenhum estudo sobre o caso, sobre até que ponto uma pessoa pode ser ressocializada. Ao meu ver, se é possível, deve ocorrer numa taxa de aproveitamento extremamente baixa, menos de 5%.  

Será que compensa toda verba gasta para um projeto desse, onde há boas escolas dentro de penitenciárias, motoristas e viaturas para levar e buscar presos nas escolas e faculdades?

Logo, logo darei início a parte 3 desta série.


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8 de fev. de 2017

60 horas em uma penitenciária! Parte 1.

Fonte: http://mestredoscentavos.blogspot.com.br/2016/09/atualizacao-patrimonio-financeiro.html
Olá meus queridos!

Postergai bastante para fazer este post, pois era algo que eu queria muito contar como foi a experiência de adentrar os muros deste local. Porém, demorei demais para escrever sobre o assunto, e a memória e os sentimentos já não estão mais tão frescos assim

Antes de mais nada, gostaria de salientar que:

As opiniões expressas nesta postagem são opiniões de alguém que não tem gabarito para falar sobre este assunto, visto que apenas 60 horas em uma única penitenciária brasileira, não dá embasamento nem bagagem suficiente para criticar e avaliar o sistema penitenciário de MG.

Aqui será relatado a visão de um cidadão, que nunca, mas nunca sequer pensou em pisar nesse ambiente, nunca havia passado nem perto de alguma estrutura dessas (penitenciárias e presídios). Um cidadão que veio e viveu uma vida inteira na roça, interiorzão do triângulo mineiro. Tão bobo que nem em uma cadeia havia ido em sua vida.

Já deu para notar que eu era um tremendo barriga verde na área de segurança, não servi o exército, não fiz tiro de guerra, não tenho conhecidos policiais, e na infância fui doutrinado pelo maxianismo e socialismo da vida, ou seja, era um esquerdista com ideias "moderninhas e sofisticadas" entre elas, a "bandeira" dos direitos humanos para os manos.

Como todos sabem, devido ao alto salário da área de segurança pública, fui instruído e seduzido a entrar nesse ramo, por ter digamos portas "fáceis" de serem adentradas via concurso público, que não é muito concorrido em vista das outras áreas, como judiciário e áreas civis públicas. 

E definitivamente, é muito, mas muito melhor ser agente penitenciário do que trabalhar na linha de produção de indústrias agrícolas. Gostaria eu de ter conhecido essa área ainda jovem e seguido carreira militar. Recomendo para qualquer um que ainda é jovem o bastante para seguir carreira, não como Agente Penitenciário e sim como polícia (em cidades de até um milhão de habitantes) ou melhor ainda nas forças armadas. O que pude notar é que os Agentes Penitenciários são a ralé da segurança pública, e eles sabem disso! Porém não aceitam ou não querem aceitar tal estigma, o sonho deles é ter equiparação salarial e de benefícios de seus primos ricos, Polícia Militar, Cívil e o mais ostentada cargo de bombeiro, sem contar o alto escalão da segurança pública, as polícias federais.

Os salários são bons, as regalias (benefícios) bons, trabalho não é puxado, não tem muita pressão como bater meta, ou vencer o robô que fica cuspindo 10 tonelada/hora de grãos em sua cara. Tem sim as partes ruins do trabalho, as partes tensas e com riscos da sua integridade físicas, mas elas acontecem esporadicamente.

O salário inicial do Agente Penitenciário em MG é de R$ 4.098,00 ( O de Policial Militar, Bombeiro e Cívil são bem maiores), não foi incomum eu encontrar porteiros e recepcionistas que ganhavam 6k na penitenciária. E devido a essa crise que estamos passando na segurança pública, tenho certeza que vão receber aumento, ainda este ano.

O que descobri também: É uma área bastante sexista!!

Mulheres têm muito mais privilégios e benefícios que os homens, porém diferentemente da área privada onde isso acontece de forma velada e política, os benefícios delas são regulamentados por lei orgânica, tanto estadual quando nos decretos da SEAP (Secretária de Estado de Administração Penitenciária). O que já de início, ainda nas aulas teóricas do curso de agente penitenciário já me causava certa revolta. 

Para se ter uma idéia da  discrepância, na lei, o Agente Penitenciário de Segurança Prisional (ASP) "MASCULINO" tem de passar por revista íntima ao entrar e sair da penitenciária. A revista íntima é proibida de ser feita em ASP do sexo feminino, mesmo sendo realizada por outra mulher. Para se ter uma idéia, a revista íntima hoje em dia é proibida até em visitas íntimas dos presos (Mulheres e meninas, sim meninas de 16 anos, que vão lá dar pros presidiários) mesmo havendo suspeita que elas estão portando drogas e celulares nas áreas íntimas.

A idéia de ter de pagar bundão, andar agachado, fazer agachamento arreganhando o ânus para outro homem me tirava o sono. Porém, graças a Deus essa é uma lei onde é feita vista grossa, os ASPs da penitenciária não faziam seus colegas passarem por essa situação todos os dias (é feita sim, em caso de suspeita de tráfico ou outras coisas), o que posso dizer é que não tive de passar por isso! Mas segundo dizem, há ASPs que já passaram por isso. Se não engano, o pessoal também estavam lutando para derrubar isso no papel.

O primeiro contato

Fonte: http://uipi.com.br/wp-content/uploads/2012/11/cadeia-no-brasil.jpg

Não vou negar que estava com muito, mas muito medo mesmo de adentrar os corredores da penitenciária. O que eu sabia sobre elas eram apenas o que é falado na mídia, nos vídeos de WhatsApp sobre rebeliões.

E muitas professores do curso teórico, fizeram questão de maximizar o lado ruim do local também, aquelas coisas militares de fazer pressão psicológica e tal. 

Falaram dos companheiros que pegaram tuberculose e hanseníase nos corredores da penitenciária, nas tentativas e artimanhas dos presos aidéticos em querer contaminar os agentes, através de lançamento de agulhas contaminadas nos ASP, ou então nos confrontos diretos, ou de inseri-las em locais estratégicos para que o ASP se espete na mesma. Nos arremessos de objetos cortantes e pedras nos agentes enquanto estes caminham pelos corredores; Nos arremessos de marmitas cheias de bostas e mijo nos ASPs. Nos companheiros que quase e os que foram agarrados pelos presos, por terem passado perto demais das grades, e quase foram estrangulados. Nos casos e casos em que os presos atacaram o agente que o estava conduzindo para um atendimento fora da cela (advogado, médico, direitos humanos, ongs, igrejas, psicólogos, ninfetas vadias, etc). Nos casos onde você e mais dois companheiro tem de entrar dentro de uma cela lotada de bandido, armado apenas com porrete e tonfa, e dar um geito de salvar a vida de outro preso. Amigos que foram pegos em rebeliões e nunca mais foram os mesmos, amigos que foram assassinados fora do trabalho. Enfim, coisas que eu nunca sonhava em passar, devo relatar que nunca dei sequer um soco em alguém.

Confesso que adentrei os portões da penitenciária com o cú não mão e com medo até de minha sombra, meus sentidos, visão e audição estavam aguçados ao extremo, adrenalina nas alturas. Isso é algo que notei nos antigões (Agentes que trabalham mais de 6 anos nos presídios e penitenciárias). Eles possuem bons ouvidos ou pelo menos são muito atentos aos detalhes sonoros, cheiros e movimentos, nem todos é claro, mas os que se destacam na profissão, naqueles em que você quer que esteja perto quando uma merda acontecer.

Mas para minha surpresa, o local não é assim um bicho de sete cabeças, a adrenalina e o medo foram logo passando pela quantidade de recrutas que haviam, e o local não era assim tão sujo. Devo dizer com toda certeza que o centro de Belo Horizonte fede mais que um pavilhão da penitenciária em que estava. A gente quase não tem contato com presos, para se chegar até o corredor onde ficam as celas, tem de se passar por muitas gaiolas até chegar lá.

A imagem abaixo representa bem como são os corredores de onde eu estava:

fonte: http://www.meionorte.com/uploads/destaque/2015/4/11/thumb/thumb-r-660x456-0x0projeto-registrar-sera-implantado-em-todas-as-penitenciarias-do-piaui-afirma-sejus-pi-fc63b0c2-b19d-47ca-adaa-678f889ad058.JPG

Como se pode ver, para alguém que já trabalhou todo emporcalhado em oficinas mecânicas e em fazendas. Dá para encarar a sujeira do local com muita tranquilidade. 

Para não deixar a leitura muito extensa, vou repartir esta postagem em duas ou três partes. 

Eu ainda não me tornei um agente penitenciário, ainda estou como analista educacional. A primeira vez que comentei sobre isso aqui no blog foi nesta postagem.  

Porém muita coisa mudou de lá para cá! Se as condições fossem as mesmas, com certeza eu iria para o ASP, porém recebi um aumento salarial (na verdade, meu cargo público sofreu), onde meu salário foi de R$ 2.200,00 para R$ 3.300,00 bruto. 

Tenho até o dia 20/01/2017 ou menos para dar meu parecer final sobre isso! Trocar de concursos ou não trocar? Até hoje não me decidi. O lugar onde estou é muito tranquilo e bom, e sempre vou estar rodeado de pessoas com índoles melhores que as que estão presas. Porém em termo salarial, a área da educação nunca, mas nunca chegará nem perto do Área da Segurança Pública.

E você, o que faria?

Não perca as próximas cenas.

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